Irmão do ex-governador Henrique Santillo faz leitura de série sobre acidente com Césio-137

Claudius Brito – A minissérie brasileira “Emergência Radioativa”, que está sendo exibida pela Netflix, reavivou o debate em torno do maior acidente radioativo do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear.

Em cinco capítulos, a produção mostra como se deram os fatos e os desdobramentos que se seguiram após a descoberta do vazamento da cápsula de um aparelho que continha o Césio-137.

A tragédia ocorreu em 1987, quando Goiás estava recebendo pela primeira vez o GP de Motovelocidade. O governador, na época, era o anapolino Henrique Santillo.

Irmão de Henrique, o ex-deputado estadual e radialista Romualdo Santillo, fez uma leitura da trama durante sua participação especial na programação das segundas-feiras na Rádio Manchester.

De início, Romualdo lembrou que por se tratar de uma produção cinematográfica, é natural que parte da narrativa tenha sido “romanceada”.

O ex-deputado, entretanto, discorda da forma como foi mostrada a participação de seu irmão, Henrique, no documentário. Na série, os nomes foram trocados. O então governador aparece com nome de Roberto Carreia, papel interpretado pelo ator Tuca Andrada.

Na visão de Romualdo, dá-se a entender que o governador não tinha conhecimento sobre aquilo que estava lidando e que ele precisou ser convencido a tomar providências.

Conforme pontuou, Henrique Santillo tinha, sim, exata dimensão do problema. Inclusive, lembrou que o ex-governador, antes mesmo de iniciar a carreira política, foi professor das disciplinas de química e física em cursinhos da capital. Portanto, obviamente, ela sabia bem o que era o elemento Césio-137.

Além disso, Romualdo lembrou que Henrique Santillo tomou providências para que aquela tragédia se espalhasse e ganhasse uma dimensão ainda maior. Ocorre, frisou, que a estrutura era precária e, ainda, havia problema no relacionamento político com o então presidente à época, José Sarney, e a assistência não teria ocorrido como se esperava, gerando desgastes ao político goiano.

“Vieram fazer uma visita em Goiás, como se fossem astronautas. Vieram todos cobertos, desfilaram trazendo mais medo, trazendo mais preocupação ainda e mais propaganda contrária a Goiás, porque muita gente já não recebia tanta fofoca que existia no caso, que goiano era rejeitado em avião, que goiano era rejeitado em ônibus. Tinha estado que não aceitava a entrada de goiano”, lamenta Romualdo.

O ex-deputado citou que o estado recebeu de fato apoio técnico de um quadro da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM), que deu contribuição importante em todo o processo.

E completou que devido à responsabilidade do Governo do Estado, que tinha o médico Antônio Faleiros à frente da Secretaria de Saúde, muitas vidas foram preservadas. (A entrevista na Manchester foi feita por Orisvaldo Pires, Fernanda Morais e Roger Pires)

Histórico do acidente radiológico de Goiânia em 1987

O acidente radioativo ocorrido na capital, no ano de 1987, foi um dos maiores que se tem registro na história mundial, fora de uma usina nuclear.

Naquele ano, Goiânia sediava, pela primeira vez, o Campeonato Mundial de Motovelocidade, que atraiu milhares de pessoas de outros estados e até de outros países para acompanharem a competição.

Foi nesse ambiente movimentado na cidade, no mês de setembro, que o acidente radiológico aconteceu, após o manuseio indevido de um aparelho de radioterapia abandonado em um local onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia.

A cápsula desse aparelho continha o césio 137. Partículas do produto, na forma de um pó azul brilhante foram espelhados no meio ambiente, provocando o espalhamento da contaminação com o elemento radioativo.

Por conter chumbo, material de relativo valor financeiro, a fonte foi vendida para um depósito de ferro-velho, cujo dono a repassou a outros dois depósitos, além de distribuir os fragmentos do material radioativo a parentes e amigos que, por sua vez, os levaram para suas casas.

A manipulação do aparelho aconteceu no dia 13 de setembro, mas só no dia 29 é que se descobriu tratar-se de um acidente radioativo. Inclusive, foi feito um comunicado à Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN, que por sua notificou a Agência Internacional de Energia Atômica –AIEA. Iniciando-se, assim um plano emergencial.

O fato ocorreu durante o governo de Henrique Santillo. Uma grande mobilização foi realizada na época, para evitar que a tragédia ganhasse maiores proporções. Policiais militares, bombeiros e técnicos da área de saúde foram envolvidos no trabalho.

Ainda com todos os cuidados e com toda essa mobilização, em certas localidades do país houve incidentes discriminatórios a goianos e ao Estado de Goiás, em decorrência do acidente.

Conforme foi noticiado, o acidente com o césio 137 em Goiânia gerou em torno de 3500 metros cúbicos de lixo radioativo. Todo esse material foi acondicionado em contêineres concretados e enterrados a vários metros da superfície, num local isolado em Abadia de Goiás, cidade distante a 23 quilômetros da capital.

Desde então, tudo é monitorado pelo Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, instalado pela CNEN.

Para fazer o acompanhamento daquelas pessoas que foram expostas à radiação, o Governo do Estado criou, em 1988, a Fundação Leide das Neves, que leva o nome de uma das vítimas da tragédia que marcou a história de Goiás.

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