Por Claudius Brito – Pode parecer uma associação meio estranha: pamonha e Fórmula 1. Mas tem uma relação que é parte da história da família e o lugar onde se passava era numa chácara em Anápolis, perto do Posto Presidente. Meia hora de casa até o local, por conta da estrada de chão, às vezes ruim.
Foram muitas idas e vindas por essa estrada, passando nos “adagabuns”. Termo que eu e os meus meninos inventamos para dar nome aos “quebra-molas” naturais da via.
Era quase sagrado passar o fim de semana na chácara. Às vezes de dormida e, como tinha que levar tudo: comida, roupas de cama e, às vezes, até botijão de gás, o carro ia sempre lotado.
Na ida era bom. Duro era na volta. Além de trazer muita coisa, tinha os galões do leite que tinha de ser fervido de imediato após a chegada. E demorava até depois de passar uns 10 minutos da fervura.
Mas, agora, vamos acelerar ao passado na chácara no final dos anos 1980 e início dos anos 1990.
Quando era época de milho, nosso pai fazia uma plantação, não muito grande, mas o suficiente para fazer umas pamonhadas no domingo.
Até confesso que não é meu prato favorito. Mas era um dever participar da pamonhada, geralmente, começando bem cedo no domingo, quando o caseiro já havia colhido alguns sacos do cereal, no ponto, sem estar duro.
Aí, cada um fazia uma coisa: cortar o milho e tirar e separar as palhas boas; limpar o milho tirando os “cabelos” e os corós que às vezes vinham juntos em algumas espigas.
Além de turma do ralador e, finalmente, a da cozinha, que era comandada por nossa mãe, com capricho no tempero e algumas pamonhas recheadas com queijo. Essas, as melhores, sobretudo, de sal. Mas, boa parte gostava das pamonhas de doce. Então, a gente fazia um meio a meio.
Dava trabalho, mas tinha as recompensas, não só pela produção, mas, principalmente, pelos momentos bons e alegres ali vividos.
Ora esses momentos eram embalados com música; ora com a televisão com antena parabólica ligada na corrida de Fórmula 1. Afinal, domingo tinha o grande Ayrton Senna nas pistas para defender as cores do nosso país.
E não tinha nada melhor do que quando Senna era vencedor. Na bandeirada final, tinha o tema da vitória, o passeio na pista com a bandeira brasileira e a emoção no alto do pódio.
Assim, entre uma pamonhada e outra, vivíamos a nossa brasilidade por meio daquele esporte que virou uma paixão nacional à época.
Um domingo, voltamos cedo da chácara. Estávamos descarregando o carro para poder ver a corrida, mas já tinha acabado com a batida que foi fatal ao tricampeão da F1.
Foi um domingo triste e, quando o corpo de Senna chegou ao Brasil, lhe foram rendidas as devidas homenagens. Certamente, não há quem não tenha se emocionado com as cenas do cortejo na época. Uma reverência a um herói nacional.
De qualquer forma, ficaram as boas lembranças: das pamonhadas na chácara e das corridas e vitórias de Senna. Foram domingos muitos especiais!
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Claudius Brito é jornalista, editor do site M1 Notícias