8 anos da DICT: uma mudança de cultura sobre os crimes de trânsito em Anápolis

Claudius Brito- Desde a sua criação, em 2017, a Delegacia de Investigação de Crimes de Trânsito (DICT), da 3ª Regional da Polícia Civil de Goiás, realiza em Anápolis um esforço descomunal, pode-se dizer, não apenas para lidar com as situações que fazem parte do seu cotidiano: abordagens, operações, apreensões, prisões. Mas, também, mudar a cultura que se tem em relação aos crimes de trânsito e, mais do que isso, lançar o olhar para o outro lado: o das vítimas e suas famílias.

À frente da DICT, o delegado Manoel Vanderic enfrentou muitas pedras no caminho, desde 2017 até hoje, portanto, ao longo de 8 anos de uma jornada repleta de adversidades, mas também de resultados e reconhecimento.

Em entrevista à Rádio Manchester, na manhã de quinta-feira 20/2, Vanderic fez uma pequena viagem nessa história. Daria um livro, mas o resumo em alguns minutos diante o microfone, dá para entender um pouco a importância que esse trabalho tem e que, segundo ele, não é um trabalho cujos méritos devam ser creditados apenas à especializada.

Antes, porém, dois números para sintetizar a parte da estatística. De 2017 para cá, segundo o delegado, a DIC realizou mais de 10 mil abordagens. Cerca de 3 mil pessoas foram parar na cadeia por dirigirem embriagados.

Para entendimento, nem todos os embriagados são presos, embora a legislação do país prevê a tolerância zero para álcool e direção.

O que determina é a quantidade de álcool no sangue detectado pelo chamado teste do “bafômetro”.

Se o teste do bafômetro indicar uma concentração de álcool igual ou superior a 0,05 mg/L, o motorista pode ser autuado por dirigir sob influência de álcool. Por outro lado, Se teste indicar uma concentração de álcool igual ou superior a 0,34 mg/L, o motorista pode ser enquadrado em crime de trânsito. Em caso de acidente provocado por motorista alcoolizado, em qualquer das hipóteses, se alguma pessoa morrer, o condutor poderá ser responsabilizado por crime doloso.

Mas, voltando ao relato do delegado Manoel Vanderic, ele lembrou que de início, houve muita pressão, sobretudo, ligada a segmentos econômicos que se sentiam prejudicados com as operações. Inclusive, pressões para que ele fosse remanejado da delegacia.

Mas, já dizia o ditado dos nossos avós: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

Parcerias

Com o tempo, a sociedade começou a assimilar melhor. E, segundo Vanderic, foi fundamental o apoio da municipalidade, mesmo a segurança sendo uma atribuição da esfera estadual, para garantir suporte necessário às operações da DICT.

Além, ainda, do respaldo do Ministério Público, Judiciário e, hoje, também de grande parte da sociedade. “Um trabalho a várias mãos”, diz o delegado.

Outro ponto foi o apoio da imprensa, inclusive, quando se colocou à público os depoimentos de familiares das vítimas. Mães e pais que perderam os seus filhos, alguns de forma bem precoce.

Parece pouco, mas na Comarca de Anápolis, já foram duas condenações em júri popular por crimes de trânsito. O que, alguns anos atrás, era algo impensável.

Significa dizer que a cultura vem mudando. Mas, obviamente, ainda há muito para se avançar.

Carteiradas

Nas abordagens realizadas pelas equipes da DICT ou por outras equipes policiais, ainda se tem muito da famosa “carteirada”, do “sabe de quem sou filho” ou “sabe quem eu sou”.

De acordo com Vanderic, não raro são os casos de desacato a policiais em serviço e até agressões.

As pessoas – destaca o delegado- não só em Anápolis e no Brasil, mas também em outros países- têm dificuldade em aceitar como criminoso quem pratica crime de trânsito. E, na sua avaliação, um crime diferencial, porque a vítima era pessoa saudável, produtiva, que não conhecia aquele que praticou o crime.

O delegado citou vários casos da rotina das operações. Numa delas, um menor de 14 anos estava dirigindo o carro do pai embriagado. Em outra situação, uma pessoa embriagada de 95 anos de idade ao volante.

Riscos para todas as idades e classes sociais. “Um crime democrático”, como configura o titular da DICT.

Uma coisa é certa: Anápolis hoje é sem dúvida uma referência nessa questão dos crimes de trânsito. E isso muito se deve ao trabalho do delegado Manoel Vanderic, de toda a sua equipe e dos seus parceiros.

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Operações da equipe da DICT em Anápolis